Rui Car
27/05/2022 14h14

Jesse Koz, Shurastey e Dodongo: uma história de realizações pelas Américas

Mais de 80 mil quilômetros e 17 países depois, Jesse, Shurastey e Dodongo escreveram uma história que ficará para sempre

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Foto: Reprodução / Instagram

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Sem planos a longo prazo, apenas com o desejo de viver uma grande aventura e assim dar um sentido à própria vida, Jesse Koz vendeu tudo o que tinha, do vídeo game ao micro-ondas, preparou o Fusca 78, convidou o grande amigo Shurastey para acompanhá-lo e pegou a estrada rumo a paisagens até então conhecidas somente por fotos e vídeos.

 

Foram cinco anos intensos, com passagens por 17 países, frio, neve, calor, montanhas, florestas, metrópoles, centenas de roteiros cobiçados feitos a bordo de um pequeno veículo, com um cachorro tamanho GG. O destino inicial, em maio de 2017, era o “fim do mundo”, como é conhecido Ushuaia, na Argentina.

 

Foi lá, em meio ao frio, que ele viveu “a maior emoção” de sua vida, como descreveu no diário de bordo. Hospedado na casa de um argentino que habitualmente abriga viajantes, Jesse decidiu ir mais adiante e incluiu o Alasca, no Norte dos Estados Unidos.

 

Com a mudança de planos, o aventureiro, que tinha então R$ 300 ao voltar ao Brasil, elaborou uma forma de executar o projeto que agora seria rodar as Américas até o Alasca. Com a viagem para o Ushuaia, Jesse ganhou milhares de admiradores e seguidores na internet.

 

Passou a ser um influenciador com o seu espírito positivo, incentivava as pessoas a realizar seus sonhos. Foi com a ajuda desse grande grupo de desconhecidos que ele arrecadava dinheiro para reformar o Dodongo, como era chamado o Fusca, e manter o projeto batizado de “Shurastey or Shuraigow?”.

 

Jesse, Shurastey e Dodongo acabaram presos durante uma nevasca – Foto: Jesse Koz/Reprodução/Instagram

Jesse, Shurastey e Dodongo acabaram presos durante uma nevasca (Foto: Reprodução / Instagram)

 

Com a parceria de uma empresa de barracas, conseguiu um lugar mais confortável e seguro para passar as noites, até então dormidas dentro do carrinho. Uma delas foi em um posto de combustíveis em Florianópolis quando ele estava de passagem pela Capital com destino à Argentina. Os amigos e parcerias comerciais ajudaram o viajante a continuar na estrada.

 

Os planos foram interrompidos por mais de um ano devido à pandemia, quando a fronteira do México e Estados Unidos foi fechada e eles voltaram para casa em Balneário Camboriú. No ano passado, a rota foi retomada para ser interrompida tragicamente na segunda-feira.

 

Apesar de trágica, uma história feliz

 

Acelerando o Fusca Dodongo, a dupla percorreu 85 mil quilômetros, 17 países e se realizou. Faltavam pouco mais de três mil quilômetros, cerca de uma semana no ritmo de Jesse, para a aventura acabar, no Alasca, quando o acidente antecipou o desfecho no Estado do Oregon, nos Estados Unidos. Embora interrompida por uma tragédia, essa não é exatamente uma história triste.

 

Não existe cachorro que foi mais feliz do que o Shurastey. Apesar de uma vida relativamente curta, foi o cachorro mais feliz do mundo”, acredita Felipe Pires, amigo de Jesse. Descrevendo o parceiro, Felipe fala de alguém meio tímido, muito aventureiro e leal.

 

Um cara extremamente verdadeiro. Não era um personagem. Era ele. Por isso, as pessoas sentiam que eram amigas dele. Esse era o diferencial do Jesse. Era um cara verdadeiro.

 

Nascido em Curitiba (PR), Jesse tornou-se catarinense de coração quando se mudou para Balneário Camboriú. Foi na cidade que os amigos se conheceram em um grupo de vôlei do colégio João Goulart e pouco tempo depois passaram a dividir uma quitinete.

 

Nessa época, ele fazia educação física e eu direito. Éramos dois universitários dividindo um apartamento para pagar a faculdade e o aluguel com menos gastos. Fomos percebendo gostos por filmes e jogos em comum e surgiu a amizade”, conta Pires.

 

Se ele tinha uma coisa, ele dividia. Uma vez eu tinha R$ 1 e falei que ia comprar uma bolacha, que seria a minha janta. O Jesse olhou para a carteira dele e falou: ‘eu tenho R$ 5. Já sei. Vamos fazer um cachorro quente’”. Por essas e outras, Pires também descreve o amigo como um super companheiro. Uma pessoa gentil, solidária, que não se negava a ajudar.

 

Jesse Koz e Felipe Pires dividiram perrengues e alegrias num apê em Balneário – Foto: Divulgação/ND

Jesse Koz e Felipe Pires dividiram perrengues e alegrias num apê em Balneário (Foto: Divulgação)

 

Além do vôlei, os games também uniam os amigos. O clássico “Legend of Zelda” estava entre os jogos da dupla. “Dodongo é um chefão do “Legend of Zelda”, uma espécie de dinossauro, e o Jesse batizou o fusca com o nome desse vilão”, registra Pires.

 

O racha da quitinete durou cerca de dois anos. Formado, Pires saiu do apê e Jesse ficou. A amizade, entretanto, se manteve.

 

Um superamigo

 

O golden retriever Shurastey entra na história de Jesse em 2016. Logo que adotou o animal, ele disse a Pires que tinha um novo companheiro no apartamento.

 

Quando ele chegou com o Shurastey, que estava com três, quatro meses, eu olhei para a pata dele e falei: ‘cara, esse cachorro vai ficar enorme, como é que você vai mantê-lo dentro do apartamento?’ E ele disse: ‘não importa. O cachorro quer receber amor e carinho’”.

 

Cerca de oito meses depois, Jesse anunciou que faria a viagem até o Alasca. Algumas pessoas próximas disseram que o cachorro não suportaria a viagem e perguntaram onde Jesse o deixaria. A resposta surpreendeu: “Eu vou levar o Shurastey. Ele é meu filho.” Para Jesse, a viagem só ocorreria com o animal junto. E assim foi!

 

Um telefonema e muita tristeza

 

Felipe Pires era o contato de emergência no celular de Jesse Koz. Foi ele quem recebeu a ligação de Roana Celeste, que também viaja pelo mundo, presenciou o acidente e avisou sobre a morte de Jesse e Shurastey.

 

Ao tentar sair de de um engarrafamento, numa estrada no Estado do Oregon (Estados Unidos), Dodongo foi atingido, de frente, por outro veículo. O Fusca ficou destruído, Jesse e Shurastey tiveram morte instantânea.

 

Dodongo, o fusca de Jesse e Shurastey

Também no mais recente vídeo do canal, Dodongo no posto de gasolina antigo que encantou a visão de Jesse nos EUA (Foto: Reprodução / YouTube)

 

Felipe contou à tia de Jesse, que mora em Balneário Camboriú sobre a tragédia. “Na manhã seguinte, terça-feira, ela saiu de Balneário às 6h, chegou em Curitiba por volta das 11h30 e contou para mãe do Jesse. Ela não queria que a mãe soubesse da morte através do jornal ou da internet.”

 

Ainda se recuperando do baque, Pires conta que decidiu falar ao ND porque Jesse ia preferir que fosse assim: “Sei que ele está bem, num lugar bom e que morreu feliz. Sempre vai existir uma versão do Jesse na nossa mente e no nosso coração.

 

O corpo de Jesse será transladado para Santa Catarina juntamente com as cinzas de Shurastey.

 

Fonte: Nícolas Horácio / ND+
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