Rui Car
17/12/2018 12h30 - Atualizado em 17/12/2018 08h28

Vai ter cerveja? Bebida alcoólica é pedra no sapato da Copa muçulmana do Qatar

Mesmo sem saber se será vendida durante os jogos, a "Budweiser" já é a cerveja oficial

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“As bebidas inebriantes (…) são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis.” O trecho do capítulo 5, versículo 90 do Alcorão é um dos causam um impasse na Copa do Mundo de 2022, a primeira a ser realizada em um país muçulmano, o Qatar. Com ligações culturais e comerciais com a bebida alcoólica, o torneio da Fifa vive uma dor de cabeça antes mesmo da ressaca. 

– Podem vir e aproveitar sem se preocupar. Qualquer pessoa que quiser beber álcool aqui no Qatar pode beber. Não vai ser um problema – diz o Hassan Al Thawadi, o secretário geral do comitê organizador, homem forte da Copa, antes de molhar o bico. – Mas não em lugares públicos e nem nas ruas – completa, botando água no chope de quem achava que seria fácil. 

Além de religiosa, a questão é legal e moral: a lei proíbe o consumo na rua e muitos muçulmanos consideram a prática uma ofensa. A organização pretende construir “ilhas do álcool”, lojas e espaços isolados para que os turistas possam beber sem perturbação, mas a questão incomoda. O próprio secretário, há alguns meses, chamou o assunto de “elefante na sala”. 

Não é difícil para um estrangeiro beber uma cerveja no Qatar. Bares e restaurantes de hotéis tem menus variados e importados de bebidas disponíveis. Curiosamente, Doha é uma cidade em que grande parte da oferta gastronômica está, justamente, nestes lugares o que diminui um pouco a discussão. O preço é salgado: um chope (500ml) sai entre R$ 30 e R$ 50 e uma taça de vinho ou coquetel vale, no mínimo, R$ 60.

 

O secretário geral do comitê organizador, Hassan Al Thawadi
O secretário geral do comitê organizador, Hassan Al Thawadi Foto: – / STR

A dúvida que resta é sobre os estádios. Cabe à Fifa bater o martelo sobre a liberação ou não dentro das arenas, já que a entidade detém um poder maior nos locais de competição nos meses do torneio.

– Vamos conversar. É uma decisão que acho que vamos tomar juntos. – diz Al Thawadi, que, apesar de diplomático, não esconde sua preferência pela lei seca.

 

Mesmo sem saber se será vendida durante os jogos, a “Budweiser” já é a cerveja oficial da Copa do Qatar, assim como foi em todos os Mundiais desde 1986. O acordo para 2022 foi selado em 2011, quando já se sabia que o Mundial seria no Qatar. O patrocínio da Ab Inbev, dona da cerveja, é um dos mais importantes para a Fifa e causa uma preocupação a mais além do consumo. A propaganda de bebidas alcoólicas também é proibida no país, o que impediria a exposição o marketing nas transmissões de jogos para bilhões de pessoas. 

– Podem fazer a propaganda das bebidas sem álcool – explica o secretário, esperando uma flexibilidade que não é comum do mercado em Copas passadas.

Na Copa de 2006, por exemplo, a forte tradição cervejeira da Alemanha motivou uma revolta com a exclusividade da bebida estadunidense nas arenas. Apesar das pressões por exceções locais, o monopólio foi mantido. No Brasil, em 2014, leis que vigoravam e proibiam o consumo de álcool em estádios em algumas cidades foram ignoradas pela Fifa. 

Depois de embates com a cultura e a lei, quem senta à mesa para negociar é a religião. A conta, desta vez, tem tudo para ficar mais cara.

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